Postado em 15 de outubro de 2023

Olho por olho, φρήν por φρήν

Algumas pessoas pensam que um bom tradutor é invisível, não mais que uma ponte, mas isso é, além de ignorante, impossível. Nem dicionaristas são invisíveis, quem dirá alguém que está transmitindo literatura.

Recentemente, com a publicação da tradução da Ilíada escrita pela Emily Wilson, embora tenha havido aclamação de leitores que agradecem que o texto clássico hoje esteja palpável, alguns críticos dizem: “não é como o original”.

Oras, é claro que não é o original! Nenhum texto traduzido é. Uma vez que se substitui uma palavra por outra, nossa impressão está posta ali (Bakhtin e Volóshinov podem te explicar mais sobre isso). Toda tradução é produto da história e da agenda do tradutor, e é – pra não dizer outra coisa – inocente pensar que um tradutor não deveria fazer isso. Um tradutor é também autor. Absolutamente todas as palavras do texto traduzido foram escritas por ele.

Um tradutor pode, é claro, dar preferência para manter ou modificar as características que forem do texto original, mas ele nunca vai ser uma transposição idêntica e transparente. As línguas são produto de longas histórias geográficas e sociais, não são simétricas e recíprocas. Todo texto traduzido é uma adaptação em que o tradutor tenta replicar uma receita com ingredientes diferentes: o produto final provavelmente vai ter um sabor diferente, mas o espírito está ali.

Falando em espírito, uma das resenhas negativas da Ilíada da Emily Wilson pontua bem essa palavra. Ou melhor, pontua que a Emily Wilson deveria ter usado essa palavra, ou outra similar, para traduzir a palavra φρένες (phrénes), porque “lung” (“pulmão”) não era adequado ao que o grego queria dizer, e que o George Chapman que estava mais certo no século XVII. Ou outra resenha, que se incomodou com a Emily Wilson ter traduzido μειλιχίοισιν (meilikhíosin) como “amigável” o que o Fagles em 1990 traduziu como “cantar os louvores [militares]” – e que, segundo essa crítica, era mais adequado pois a Ilíada, segundo ela, é um canto militar (ou, pelo menos, é o que o conhecimento dela de russo diz). Uma outra crítica comum é à tradução da Odisseia que a Emily Wilson publicou em 2017, traduzindo πολύτροπον (polýtropon, muitos-vira) por “complicado” – uma vez, vi no Twitter alguém chamando essa escolha tradutória de “laughably bad”, ignorando a questão que, etimologicamente, “complicō” pode ser quebrado em “com dobras”, o que não é tão distante assim de alguém que vira muitos.

Tradução é uma das ocupações que, através da diplomacia, garantiu trocas, a transmissão de conhecimento e a comunhão entre grupos. Tradutor é isso: um diplomata. E diplomatas têm, o tempo todo, agendas a cumprir.

Categoria: Opinião

Tags: tradução

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