Postado em 5 de outubro de 2023
— Oi, boa tarde! Quanto tá a cartela de aspirina?
— Arigatô!
— Eu vou querer duas cartelas, por favor.
— Arigatô!
— Obrigada, bom dia.
— Arigatô!
As cartelas custaram dezesseis reais e, até o momento, oito anos na memória.
Eu sempre fui daqui. E também sempre não fui. Cada metade do meu DNA vem de um hemisfério diferente — mas nenhum dos lados são meus.
Não falo muito japonês, não tenho muitos hábitos gauchescos. Saquê tem gosto de batata e cachaça arde o meu nariz. Não sou muito fã de sushi, nem de tapioca. Me perguntam bastante se sou “de lá mesmo”, mas também já ouvi muitas vezes que sou uma “japonesa de araque” (obrigada pelo carinho, tio).
Não sei por que a humanidade começou a separar o “lá” e o “aqui”, e por que o “lá” começou a ser merecedor de hostilidade. Ou de uma bizarrização “boa”, por assim dizer. A fetichização cultural não é mais confortante do que as ofensas, uma vez que a tua identidade inteira é reduzida a exclusivamente o que acreditam ser bom e agradável. Fora disso, deve ter algo de errado contigo. Nenhum espaço se sente plenamente confortável com como tu é e, assim, não te é dada a oportunidade de te sentir plenamente pertencente em nenhum deles, principalmente se tu quiser fazer parte dos dois.
Dito isso, não quero ter que escolher. As histórias de ninar e a comida não são “de lá”, nem as músicas e roupas são “daqui”. Todas essas coisas são minhas.
Categoria: Pessoal
Tags: bicultural nikkei
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