Das coisas que não importam mais

Quando eu era criança, muita coisa parecia de suma importância no mundo: areia movediça, bananas de dinamite, amarelo queimado, bigornas e losangos (que eu, durante muitos anos, erroneamente pensei que fossem “losângulos”).

O mundo era feito dessas coisas. Ou pelo menos é o que parecia, já que elas preenchiam boa parte do que eu pensava.

Até que, um dia, elas não importaram mais. Ou melhor, um dia eu percebi que a vida aconteceu e fazia muito tempo que essas coisas já não importavam mais. E eu sequer notei que elas não estavam mais lá.

É assim com muita coisa. Tem tanta coisa que nos abala que parece que a vida é preenchida só delas, nos consumindo a cada passo. Onde quer que a gente olhe, parece que essas coisas estão nos seguindo como uma sombra, como se fizessem parte de nós. Mas a vida vai continuar acontecendo. Um dia, essas coisas também vão deixar de importar. E talvez a gente nem note.

Categoria: Pessoal

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Amarelo

Eu não sou branca. Nunca fui. E espero nunca querer ser.

Veja bem, não é que rejeito a parte de mim que é. Só não quero que ela afogue a parte de mim que não é. E também não quero me desligar tanto da minha parte amarela a ponto de querer me desfazer dela.

Durante muitos anos, achei que ela nem existisse direito. Na verdade, era só eu que não compreendia que cultura vai muito além de gostar ou não de j-rock e mangás. Uma vez, numa stream, me perguntaram se eu não achava empolgante que as histórias de ninar que me eram contadas eram de tão longe. A primeira coisa que eu pensei foi: de longe? elas são do lado da minha cama. O Japão nunca foi “lá”, eu sempre fui ele, e ele sempre foi eu. Mesmo quando eu não via assim. Ou não queria ver.

Teve um tempo em que eu não era tão fã assim de ser amarela. Racismo marca mais fundo que o osso. Tive um colega que inventava músicas, e uma em específico foi tão humilhante que até hoje eu nunca repeti pra ninguém. Ela me vem à mente toda semana, desde os meus seis anos de idade. Já tive vários apelidos que prefiro fingir que nunca existiram. Não consigo me lembrar de quantas vezes já me perguntaram sobre comer cachorro, ou que me cumprimentam juntando as mãos, ou que puxam os olhos para simular um amendoado dos olhos… De nada pelas risadas, apesar do preço que eu paguei por elas. Odiar o próprio rosto cansa. Às vezes, a voz do povo não é a melhor voz pra se ouvir. Espero que Deus tenha outra voz melhor.

Poucas vezes os comentários sobre asiáticos que eu já ouvi vieram de pessoas que se declaravam abertamente racistas. Há não tantos anos atrás assim, cuspiram em mim na rua, como se eu fosse a causadora do mal do mundo (o racismo com amarelos foi bem intenso durante a pandemia…). Mas essa é a minoria das vezes. Na maioria das vezes, vieram de pessoas muito simpáticas, com senso de humor “ácido”, ou “diferente”. É só um riso inocente com os amigos – um riso que tem como cimento da sua fundação uma mensagem bastante clara: para alguns, a existência de amarelos é risível. E, desse riso, não me interessa ouvir uma sílaba sequer.

Categoria: Pessoal

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