O Segredo do Tempo

Lancei um jogo!

Quer dizer, escrevi um e depois apresentei em aula. Mas deve ser mais ou menos isso que as editoras de jogos fazem, né?

O trabalho final de Elementos de Latim II deveria ser a composição de um jogo (de qualquer tipo) que contivesse dez frases em latim. Eu me questionei a respeito de fazer algo simples e só lavar minhas mãos (o que não teria demérito algum, é um jogo e ponto), mas decidi pelo mais trabalhoso: escrever uma história de “faça suas escolhas” completamente em latim.

Eu queria me obrigar a estudar latim. Então, escrevi minha história inicialmente em português e depois comecei a árdua missão de traduzir ela inteira para o latim. Que sacrifício foi isso… O máximo que eu já tinha escrito em latim eram as respostas dos pensa! Pra deixar mais difícil, eu não tenho um dicionário que seja português > latim, só o contrário! É o mais comum quando se fala de línguas clássicas. Quer dizer, é muito mais provável que as pessoas vão traduzir textos que estão nessas línguas do que escrever seus diários nelas. Então, horas foram gastas na seguinte sequência de atividades:

Coloca uma palavra em português ou inglês no tradutor pra latim > verifica no Ernesto Faria se funciona essa palavra > não funciona > testa outra palavra similar > Ernesto Faria > funciona. De novo. E de novo.

Nas estruturas então… Foi ainda mais difícil! Existe isso em latim ou é completamente agramatical? Confesso que algumas estruturas sintáticas e escolhas lexicais foram pegas emprestadas do grego clássico. Coorīrī tá ali porque a palavra que eu queria era γίγνομαι. Uma das estruturas, no entanto, precisei pedir ajuda para o meu latinista favorito – a internet não me respondia de jeito algum! Vim a saber que é porque aquela construção não ocorria em latim, não era minha incompetência em usar o buscador, hahah.

Enfim, foi um bom exercício. Continuarei a estudar latim. Talvez no futuro não seja mais tão sofrido escrever.

Para jogar o jogo, é só clicar na imagem abaixo, ou aqui!

Janela em uma sala destruída. Na frente, as palavras "Secretus temporis"

Finalmente o semestre está acabando!

P.S. Os trechos em amarelo estão destacados porque eram as frases que eu precisava usar no meu trabalho.

Categoria: Clássicas

Tags: jogo latim

Novíssimo ano (ou com dois dias de uso)

Eu pretendia escrever ontem, mas não me surgiu inspiração o suficiente. Numa boa notícia: tirei A na minha primeira atividade de Políticas da Educação Básica, e hoje concluí minha tradução de latim!

Ontem, reiniciei a ler A Bibliotecária de Auschwitz. Eu tinha pensado em, dessa ver, ir marcando passagens e frases que eu acho marcantes, mas parei logo após as primeiras, e removi tudo que eu tinha marcado até ali. Me dei conta que aquele livro tem algo que me marca em cada página. O livro acabaria como aqueles xerox que a gente vê de vez em quando, que tem mais amarelo que branco, érm.

Início e final do mês são tempos que me deixam com um tanto de ansiedade, por motivos que não cabem te contar. Mas queria dizer que as coisas melhoram. Sempre melhoram.

Quero voltar a me dedicar às minhas traduções, que estão um tanto paradas porque vários professores tiveram a mesma ideia: já que a gente ia ficar sem aula por causa do recesso de final de ano, por que não deixar umas atividades? Só que quando são cinco, seis professores dando atividade, a coisa aperta. Agora, só tenho mais sete coisas pra fazer antes de as aulas voltarem, então estamos conseguindo! Aos poucos, mas indo. Piano, piano se va lontano, né?

Eu não costumo fazer ~New Year’s resolutions~, mas esse ano eu resolvi que precisava. Segue a lista:

– conseguir ler mais coisas só porque eu quero ler;
– fazer mais arte;
– sentir o peito mais cheio (de φρήν, sinto que eu dei uma murchada nos últimos tempos);
– voltar a falar sozinha;
– dançar mais;
– sorrir mais;
– ser mais paciente e tolerante;
– ser mais bondosa;
– ficar mais em silêncio;
– aceitar melhor estar sem amigos;
– perdoar mais;
– elogiar mais.

Ultimamente, tenho visto bastante gente interessada em Libras e Cultura Surda, o que eu acho lindo. Mas não consigo deixar de lembrar com certa dor que a incerteza da permissão de participar daquilo foi uma das coisas que nos desincentivou de entrar mesmo na comunidade. Eu sinto falta de ir na SSRS.

Por fim, queria compartilhar que tenho receio que aconteça com Grego o que aconteceu com Libras, porque a gente sabe que não foi só a questão de carreira que nos tirou dali.

Categoria: Pessoal

Tags: ano novo reflexões resoluções vontades

slow(est) blogging e fim de ano

Faz um tempo que a gente não se fala. Eu até diria que faz um tempo que eu não falo comigo mesma. Parece que cada instante que eu estou fazendo algo que não seja pra aula é um instante que eu estou sacaneando a mim mesma (do futuro, que terá de lidar com qualquer coisa que eu ainda não tenha feito). Mesmo assim, eu não consigo ser produtiva. Eu me sinto afogando, e eu sinto tanta pressa. Um projeto que comecei, mas ainda não terminei é da tradução de epigramas de dois autores específicos. Mas esse eu vou continuar até terminar, mesmo que demore.

Hoje é o último dia do ano. E eu tenho medo do ano que vem. Mas a gente vai ficar bem. É como disse o Robert Frost:

“[…] The only way out is through. And the only good way through is together.

É o único jeito que se existe.

Mudando de assunto, no início do ano, resolvi começar um projeto: mandar um e-mail todos os dias para mim mesma, como se eu me correspondesse com o meu ocasionário. Não sei se preciso dizer, mas acabei abandonando o projeto ao longo do caminho. Nem foi algo consciente, só acabei me esquecendo. Faz uns dias que lembrei, mas não tive coragem de escrever novamente.

Espera. Preciso terminar meu trabalho de História da Educação.

Voltei. Por um pouco, pelo menos. Ainda não terminei meu trabalho.

Ano que vem, espero passar mais tempo no papel. Meus ocasionários dos últimos anos estão muito mais vazios que os dois primeiros, porque agora eu passo menos tempo no silêncio de mim. Pode ser porque, de certo modo, faz um tempo que eu fujo desse silêncio. Creio que vai ser bom pra minha mente e pra me sentir mais parte do mundo feito de terra, porque hoje eu me sinto mais conectada com códigos computacionais do que com a textura do plástico do ônibus e a textura das minhas canecas.

Decidi que vou fazer em 2024 algo similar ao que a Mel, do Repete Roupa, faz todo ano: uma lista de compras do ano, em que meus únicos gastos permitidos do ano são gastos previstos na lista. Gostaria de ser mais apreciativa de tudo que eu já tenho. Eis aqui a lista que eu concebi até o momento (12:48 do dia 31 de dezembro de 2023):

☺ Tablet (se eu conseguir economizar pra comprar um, porque tenho dificuldade de ler PDFs no Kobo e tenho também dificuldade corporal e psicológica de ler em computador);

☺ Livros (mas não algum que eu já tenha, é obrigatório que seja inédito);

☺ Experiências (museu, restaurante, essas coisas);

☺ DVDs de séries que eu gosto muito;

☺ Aparelho de VHS;

☺ Acho que é isso.

Estou proibida de comprar:

Lápis. Eu já tenho muito lápis.

Categoria: Pessoal

Tags: ano novo fim de ano lista de compras

What are you doing?

Era início de 2009 quando eu fiz minha primeira conta no Twitter. Lembro até hoje exatamente o que foi meu primeiro tweet, em que eu informava o mundo entusiasticamente que estava ouvindo Pretinho Básico. Naquela época, eu adorava rádio, ouvia o dia inteiro. Até Voz do Brasil, em que eu achava puro charme os links feitos por telefone, tal como era quando o programa ainda tinha mensagens do Getúlio.

Usei o Twitter todos os dias de maio de 2009 até 22 de novembro de 2023. Eu gostava de sentir que existia uma audiência até pros meus pensamentos mais triviais. Até porque, na época em que eu primeiro criei minha conta, a pergunta que o Twitter fazia era bastante pessoal e convidava um fluxo de pensamento bastante informal: “What are you doing?”. Eu lembro de ficar desgostada quando essa frase mudou para “What’s happening?” – hoje refletindo, foi aí que o Twitter deixou a particularização de lado para virar uma plataforma em que o externo fosse preponderante.

A Miley Cyrus foi a primeira pessoa que eu vi deixando o Twitter, ainda em 2009. Ela até gravou um clipe caseiro para a música explicativa, cuja letra eu conseguiria cantar agora se quisesse. Até há algum tempo, eu não realmente pensava em deixar o Twitter. Eu totalmente tinha adotado a ideia de “isso não é bom, mas eu não consigo largar”. Passar tanto tempo da minha vida não foi exatamente benéfico pra mim. Soa até doentio eu não conseguir ficar uma hora no computador sem “dar uma olhadinha” no Twitter. Justamente por ele ter tantos posts curtinhos e diferentes, sempre existe algo de novo e diferente. Será que eu tô perdendo alguma coisa? É só uma olhadinha.

tweet escrito "a gente costuma falar que o Twitter é de graça mas de vez em quando a gente paga um preço sim"

“Esse site é de graça” é uma piada constantemente repetida no Twitter. Mas eu considero que até aqui o Twitter já me custou muito, considerando que ele me desacostumou a dar atenção ao que eu estou dando atenção. E é isso que eu espero recuperar. Ser mais intencional com o meu tempo. Quanto aos meus pensamentos e compartilhar o que eu gosto, bom, é pra isso que esse espaço aqui existe.

Por inércia, muitas vezes eu ainda me pego digitando Ctrl+T tw como eu já devo ter feito tantas milhares de vezes. Mas hoje, a página vazia é quem me olha de volta. Mas ela já estava vazia muito antes.

Adeus, Twitter.

Categoria: Pessoal

Tags: internet

Resenha: The Anthropocene Reviewed, de John Green

The Anthropocene Reviewed, Reviewed
 

Good morning, Nerdfighters, it’s Sunday.

É primavera de 2023 e, olhando pro céu, eu poderia dizer que é a primeira vez em muitos meses em que o sol brilha sem nenhum sinal de que nuvens virão pra estancar a luz que finca a pele como flechas. Mas amanhã vai refrescar, e vai chover.

O livro surgiu primeiro como um podcast, mas boa parte dos ensaios do The Anthropocene Reviewed foi escrita num tempo assim, em que estar do lado de fora causava desagrado, e a perspectiva de um tempo agradável não era ainda visível no horizonte. Na época, a falta de irmandade tornava ainda mais distante esse respiro. “Quem tem que se cuidar é quem tem comorbidades”, diziam os críticos às medidas de contenção do vírus, como se houvesse algum mérito em abandonar à própria sorte quem é mais vulnerável.

A espécie humana não se manteve de pé assim. Se o homem hoje tem os olhos nos astros é porque antes alguém cuidou dele. Não existiriam prédios, carros, computadores, livros, receitas, escolas, hospitais, nada se não fosse a colaboração humana. Nada. Uma das coisas mais incríveis que o antropoceno nos traz é isso: a oportunidade de não estarmos sozinhos, porque tudo que a gente toca é fruto de um extenso trabalho de se importar uns com os outros. Se hoje os sorrisos são hoje visíveis nas ruas, é porque, em alguma medida, a humanidade se deu a mão de novo. E é exatamente isso que o John Green faz nesse livro.

Hope is not easy or cheap. It is true. — John Green

Eu dou ao The Anthropocene Reviewed quatro estrelas*. DFTBA**.

* Fui obrigada a deduzir uma estrela porque alguns dos ensaios soam muito mais tocantes na voz do John Green, em vez da voz monótona que a minha mente tem.

** Don’t forget to be awesome.

Categoria: Resenha

Tags: john green