Traduções de Nyssia Gaudioso
Há um tempo, meu professor me enviou esse primeiro poema, porque eu comentei que gostaria de treinar mais tradução de poemas, só nunca selecionava nenhum. Esqueci de mandar a tradução de volta pra ele, mas registro-a aqui, com a ideia de que talvez um dia ele esbarre nela.
Τέσσαρες αἱ Χάριτες, Παφίαι δύο καὶ δέκα Μοῦσαι·
Δερκυλὶς ἐν πάσαις· Μοῦσα, Χάρις, Παφίη.
Anônimo, Antologia Palatina 5.95
São quatro Graças, duas Páfias e dez Musas:
Dercílis é tudo*: Graça, Páfia, Musa.
* Aqui, o mais correto seria “todas” ou “uma de cada/todas as categorias”, mas achei que seria mais poético um “tudo”, já que colocaria a amada Dercílis não só preenchendo todas as categorias como também, bem, tudo.
(originalmente traduzido em 06/10/2023)
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τὸ στόμα ταῖς Χαρίτεσσι, προσώπατα δ᾽ ἄνθεσι θάλλει,
ὄμματα τῇ παφίῃ, τὼ χέρε τῇ κιθάρῃ.
συλεύεις βλεφάρων φάος ὄμμασιν, οὖας ἀοιδῇ:
πάντοθεν ἀγρεύεις τλήμονας ἠιθέους.
Macedônio Hypatos, Antologia Palatina 5.231
Tua boca floresce com as Graças, tua face desabrocha com as flores,
Teus olhos resplandecem com Afrodite, tuas mãos excelem na cítara.
Capturas com os olhos a luz das pálpebras, com o canto, os ouvidos
Por inteiro, capturas os jovens miseráveis.
(poema traduzido em 28/10/2023)
Esse poema foi bem desafiador, porque ele é preenchido de dativo, que não é lá o caso mais direto do grego. E também porque, bom, não é um poema exatamente em pleno grego clássico. Macedônio Cônsul (Hypatos) era um bizantino, cônsul do Imperador Justiniano, já no século VI EC. Os epigramas dele estão concentrados, hoje, na Antologia Palatina, separados em sete volumes diferentes (a maioria, assim como o que apresentei acima, está no volume V, de epigramas eróticos) – na antiguidade, já haviam sido publicados por Agathias, poeta e historiador da época do reinado de Justiniano.
Gostaria também de registrar que, nos primeiros dois versos, há apenas um verbo: θάλλω (“florescer”). Como entendi que o mesmo verbo não combinaria para todas as instâncias, recorri a um dicionário de sinônimos para ir individualmente casando sinônimos desse florescimento com a parte florescida. Tentei, também, manter uma ordem uniforme nos dois pares de verso: o primeiro par segue a estrutura parte do corpo + “influenciador”, o segundo, a ordem instrumento + “coisa roubada”.
Categoria: Traduções
Tags: antologia palatina
Algumas pessoas pensam que um bom tradutor é invisível, não mais que uma ponte, mas isso é, além de ignorante, impossível. Nem dicionaristas são invisíveis, quem dirá alguém que está transmitindo literatura.
Recentemente, com a publicação da tradução da Ilíada escrita pela Emily Wilson, embora tenha havido aclamação de leitores que agradecem que o texto clássico hoje esteja palpável, alguns críticos dizem: “não é como o original”.
Oras, é claro que não é o original! Nenhum texto traduzido é. Uma vez que se substitui uma palavra por outra, nossa impressão está posta ali (Bakhtin e Volóshinov podem te explicar mais sobre isso). Toda tradução é produto da história e da agenda do tradutor, e é – pra não dizer outra coisa – inocente pensar que um tradutor não deveria fazer isso. Um tradutor é também autor. Absolutamente todas as palavras do texto traduzido foram escritas por ele.
Um tradutor pode, é claro, dar preferência para manter ou modificar as características que forem do texto original, mas ele nunca vai ser uma transposição idêntica e transparente. As línguas são produto de longas histórias geográficas e sociais, não são simétricas e recíprocas. Todo texto traduzido é uma adaptação em que o tradutor tenta replicar uma receita com ingredientes diferentes: o produto final provavelmente vai ter um sabor diferente, mas o espírito está ali.
Falando em espírito, uma das resenhas negativas da Ilíada da Emily Wilson pontua bem essa palavra. Ou melhor, pontua que a Emily Wilson deveria ter usado essa palavra, ou outra similar, para traduzir a palavra φρένες (phrénes), porque “lung” (“pulmão”) não era adequado ao que o grego queria dizer, e que o George Chapman que estava mais certo no século XVII. Ou outra resenha, que se incomodou com a Emily Wilson ter traduzido μειλιχίοισιν (meilikhíosin) como “amigável” o que o Fagles em 1990 traduziu como “cantar os louvores [militares]” – e que, segundo essa crítica, era mais adequado pois a Ilíada, segundo ela, é um canto militar (ou, pelo menos, é o que o conhecimento dela de russo diz). Uma outra crítica comum é à tradução da Odisseia que a Emily Wilson publicou em 2017, traduzindo πολύτροπον (polýtropon, muitos-vira) por “complicado” – uma vez, vi no Twitter alguém chamando essa escolha tradutória de “laughably bad”, ignorando a questão que, etimologicamente, “complicō” pode ser quebrado em “com dobras”, o que não é tão distante assim de alguém que vira muitos.
Tradução é uma das ocupações que, através da diplomacia, garantiu trocas, a transmissão de conhecimento e a comunhão entre grupos. Tradutor é isso: um diplomata. E diplomatas têm, o tempo todo, agendas a cumprir.
Categoria: Opinião
Tags: tradução
εἴτε σε κυανέῃσιν ἀποστίλβουσαν ἐθείραις,
εἴτε πάλιν ξανθαῖς εἶδον, ἄνασσα, κόμαις,
ἴση ἀπ᾽ ἀμφοτέρων λάμπει χάρις. ἦ ῥά γε ταύταις
θριξὶ συνοικήσει καὶ, πολιῇσιν Ἔρως.
Anônimo, Antologia Palatina, 5.26
Mesmo se te visse com brilhantes cabelos escuros,
ou com cabelos claros, dama,
a mesma graça teriam. É certo que o Amor* facilmente
faria deles um lar, mesmo quando grisalhos.
* Eros
Trad. Nyssia Gaudioso
(originalmente traduzido em 30/06/2023)
Categoria: Traduções
Tags: anônimo antologia palatina
Em 2017, escrevi um texto, motivado por uma aula de Leitura e Produção textual, sobre objetivos de vida e apresentação pessoal, que explicava sobre a validação que eu sentia — e ainda sinto, confesso — ao ler Memórias Póstumas de Brás Cubas. Bem é verdade que a nossa motivação não era a mesma. Afinal, ter meu nome estampado em todos os boticários e farmácias não combinaria com a timidez que me acompanha há muito tempo.
O romance começa com a morte do defunto-autor. Afinal, nada faz mais sentido do que começar pelo que permitiu que o livro fosse escrito. A morte nos liberta das amarras das aparências, relações e opiniões. Foi meu pai que me explicou sobre isso no final da infância, quando eu perguntava sobre Machado de Assis. Encontrei nele meu autor brasileiro favorito.
De repente, dizer que “felicidade geral” é meu objetivo de vida pareceu menos fantasioso. Ou, pelo menos, pareceu um tanto mais palpável. Brás Cubas tem a brilhante ideia de um emplasto que curaria o mal do século, e foi essa ideia que o levou à morte.
É logo no início do romance que se lê:
Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte, é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade.
Originalmente, a postagem que escrevi dizia que eu morreria de bom grado se fosse necessário para tornar esse sonho realidade. Refletindo hoje, anos depois, percebo que já o fiz. Já morri muitas vezes pra garantir o bem-estar de outras pessoas. E, por vezes, ainda morro.
Talvez ainda morra muitas outras vezes, por este ou outro motivo. Ou aprenda que não deveria acontecer tanto assim.
Categoria: Pessoal
Tags: brás cubas objetivo
ἐκμαίνει χείλη με ῥοδόχροα, ποικιλόμυθα,
ψυχοτακῆ στόματος νεκταρέου πρόθυρα,
καὶ γλῆναι λασίαισιν ὑπ᾽ ὀφρύσιν ἀστράπτουσαι,
σπλάγχνων ἡμετέρων δίκτυα καὶ παγίδες,
καὶ μαζοὶ γλαγόεντες, ἐύζυγες, ἱμερόεντες,
εὐφυέες, πάσης τερπνότεροι κάλυκος.
ἀλλὰ τί μηνύω κυσὶν ὀστέα; μάρτυρὲς εἰσιν
τῆς ἀθυροστομίης οἱ Μίδεοι κάλαμοι.
Dioscórides, Antologia Palatina 5.56
Me enlouquece o lábio rosado, de tantas falas,
derrete a alma o portal da boca de néctar,
e olhos brilhantes sob grossas sobrancelhas,
nossos corações, redes e armadilhas —
também alvos seios, bem formados, charmosos,
volumosos, mais encantadores que [o cálice de] todas as flores
Mas por que mostro o osso aos cães? São testemunhas
dos que muito falam as canas de Midas.
Trad. Nyssia Gaudioso
(originalmente traduzido em 13/07/2023)
Categoria: Traduções